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Vinícius entrou, então, para os autos, como o eterno vilão dessa história. O culpado por nunca ter contado a verdade, por ter magoado a amiga de Vera e por nunca ter dado a ela a chance de pedir desculpas. “Ele nunca gostou de mim de verdade”, disse a Letícia, por inúmeras vezes. “Se gostasse, teria insistido mais”.

 

31/10/08
Vitimas e Vilões

Árvores teimosas, vento impaciente, porta entreaberta. A janela da copa ignorava o reflexo da gelatina. Na verdade, pouco importavam os quitutes na mesa, o café, o pão, a torta. Naquele momento, o vidro só tinha imagem para os olhos de Vera, que ultrapassavam o brilho e buscavam foco, entre feixes de sol e convites à não-visão, na imagem perturbada de Vinícius, arrancando o carro enfurecido, desapontado.

A tarde tivera um desfecho inesperado. Por mais pontos que ligasse, Vera não era capaz de compreender como um dia de folga para ambos, com cinema marcado e comemorações a dois, mesa farta e jantar de velas no mais tardar, podia ter se transformado em discussão, insultos e ignorantes marcas de pneu no asfalto.

Vinícius havia sido o primeiro a chegar para arrumar a mesa. Tanto tempo sem estarem juntos, tantas ocasiões em que desencontros e desentendimentos ampliaram a distância entre eles. Quando soube da folga de Vera, não pestanejou. Solicitou à empresa os dias a que tinha direito, em função de hora extra, e partiu logo para a padaria Bonanza. “A preferida dela”, dizia sempre ao dono, mesmo sabendo que nada faria o fervoroso e senil capitalista dar-lhe um desconto.

Vera, por sua vez, programara seu recesso há meses. Férias-prêmio, direito assegurado para a sua função. Todas as colegas desejaram ‘boa sorte’ no dia anterior, cientes dos desencontros do casal, freqüentes desde que haviam começado a namorar. Era uma oportunidade e, para ela, a chance de quitar qualquer compromisso com a saudade. De recomeçar, mais uma vez.

Veio o cinema. De mãos dadas, como no início. Entre saudades, abraços e beijos, falas ao pé do ouvido, cafuné e carinho com a ponta dos dedos, odiaram o filme. “Que bom”, pensaram ao mesmo tempo, satisfeitos em prestar atenção em mais nada além do momento. Daí os créditos, a saída e o ringtone. Ringtone?! Música do celular...

- É a Letícia! – ela se apressou, preocupada.
- Eu não acredito que você vai atender a essa mulher.
- Eu já disse que não vou aceitar essa intolerância com a Letícia. Ela é minha amiga, Vi. Você vai ter que aceitar isso! – o tom era taxativo. – Ela é de minha inteira confiança. Confio mais nela do que...
- ... do que em mim? – olhou seco para ela.
- Não coloque palavras na minha boca! – encarou. – Eu ia dizer que confio nela mais do que em mim mesma... – e atendeu.
- E isso, sim, seria motivo de glória?! – zombou.

O piso da entrada do cinema e os pedais do automóvel logo reconheceram uma força excessiva dos passos e pés. No carro, o caminho de volta. Dele, raiva, silêncio, angústia. Dela, indiferença, tom de provocação, risadas infantis ao telefone. Só mesmo chegando à casa de Vera é que Vinícius não suportou e abandonou o calar:

- Até quando você vai permitir que essa mulher diga o que você deve sentir? – desligou o carro e atirou o cinto de segurança para o seu lado esquerdo.
- Letícia... – tapou o celular e reprovou Vinícius, balançando a cabeça. –, desculpe, querida, nos falamos depois, ok? Obrigada pela informação!
- Informação?! – elevou as sobrancelhas. – Muito bem... O que é agora? O que eu fiz agora?
- Você deveria ter feito algo? – Vera voltou a encará-lo.
- Como? – surpreso, esfregou o rosto.
- Por que você não me conta? – os olhos marejados, decepcionados. – Por que sempre essa cara de quem é inocente?
- Contar o quê?! Mas eu não fiz nada, Letícia! – perplexidade em evidência. – Essa sua amiga, ela... ela...
- Eu sabia! – abriu com ferocidade a porta do carro. – Lave a boca antes de falar da Letícia, seu traidor!

Vera, chorando, desceu do carro e sequer notou a mesa posta, cheia de surpresas. Nem o cartão, nem as flores, nem nada. Vinícius chegou a pular do carro, mas desistiu de alcançá-la antes mesmo de chegar à porta, entreaberta que só ela.

- Não posso mais pedir que acredite em mim. – disse, de longe. – Nem tenho mais forças para lhe pedir que não acredite nela... – baixou a cabeça, que Vera viu balançar no trajeto dele até o carro. – Por que permite aos outros que tirem conclusões por você?! – gritou, antes de entrar no carro.

Desapontado, Vinícius deu a partida e acelerou sem rumo naquele fim de tarde. Quantas discussões, quanto silêncio, quantas hipóteses já haviam separado os dois sem qualquer conversa concreta, direta. Quanta desconfiança num relacionamento. Para ele, não fazia mais sentido. Não podia mais pedir a Vera que lhe desse crédito. Chegara ao limite. E assim, ouvindo o telefone tocar, virou à direita, na avenida principal.

- Oi, Vi.
- O que é que você quer? – disse com rispidez.
- Isso é maneira de falar comigo?
- Depois de tudo o que você fez? Estou farto dessa sua insistência!
- Eu só provei que a Vera não confia em você. Na verdade... – suspirou do outro lado da linha. –, você merece alguém como eu, Vinícius.
- Letícia, por favor, pare de me ligar! – controlou com dificuldade a direção do carro. – Ah, e aproveite para cuidar bem da sua amiga. Deve ter feito por merecer a confiança que ela tem em você, não é mesmo?
- Vi, querido... – o timbre mudou. – Você sabe que será, para sempre, o “vilão” dessa história, não sabe?
- E você sabe que será, para sempre, a “rejeitada” dessa história, certo?
- A Vera não merece a sua fidelidade, Vi...
- Talvez.... – respirou fundo. – Mas não é jogando o seu jogo que vou encontrar alguém que mereça. – e desligou.

Dias depois, Vera recebeu um áudio no celular. Achou divertido, pois nunca havia experimentado essa ferramenta. Ouviu. Era a conversa de Letícia e Vinícius. Não demorou até o telefone se espatifar no chão.

Daí em diante, Vera passou dois meses tentando falar com ele, que jamais atendeu. Depois de um tempo, perdoou Letícia. Entendeu que a amiga fizera o que fez por gostar dele. E Vinícius entrou, então, para os autos, como o eterno vilão dessa história. O culpado por nunca ter contado a verdade, por ter magoado a amiga de Vera e por nunca ter dado a ela a chance de pedir desculpas. “Ele nunca gostou de mim de verdade”, disse a Letícia, por inúmeras vezes. “Se gostasse, teria insistido mais”.

Para ela, a sentença bastou. Pôde viver tranqüilamente, nos cinco anos posteriores, espalhando ao mundo que jamais havia conhecido algum homem que fosse confiável. Quanto a ele... Bem, Vinícius foi morar em Belém do Pará. Está casado, tem dois filhos. Já Letícia... também está casada, já descobriu o endereço de Vinícius e começou a adorar passar férias no Pará. Sim, ainda tenta ligar para ele. E Vera acha um absurdo ele não dar uma chance..

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2007

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Guilherme Amorim é um mineiro simples, metido a organizado e que sobrevive sem estantes. Além de devoto da Mega Sena, irônico e canhoto fervoroso, é jornalista e criador/apresentador do programa Espátula, veiculado na iRadio. Escreve mensalmente na coluna Trejeitos. E-mail: guilbh@gmail.com

   
 

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