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A EC foi a pioneira em diversos aspectos que hoje são intrinsecos à Indústria de Quadrinhos. Um deles é o contato com o leitor. A EC foi a primeira editora a publicar uma seção de cartas em seus gibis, algo copiado por praticamente todas as editoras que vieram depois [ ...]

 

17/04/08
A Ascensão e Queda da EC Comics – Parte 1

Como foi dito na última coluna, a Segunda Guerra Mundial mudou tudo, inclusive os quadrinhos. Se durante o conflito os super-heróis gozavam de uma grande popularidade, no dia após a rendição das forças japonesas as coisas já não eram bem assim. Aos poucos, mas de maneira inequívoca, os quadrinhos de super-heróis passaram a perder popularidade da mesma forma que a ganharam nos primeiros anos da década de 1940. Ler aventuras de homens de colante socando bandidos não tinha o mesmo encanto de antes. Isso fez com que as editoras cujo principal foco eram os quadrinhos de super-heróis (principalmente as futuras Marvel e DC Comics) passassem a andar mal das pernas.

Se a popularidade cada vez mais descendente dos quadrinhos de super-heróis trazia prejuízos para Marvel e DC, isso abria espaço para que outras editoras, cujo foco não fosse seres superpoderosos, entrassem de maneira mais presente no mercado. E, no fim da década de 1940, nenhuma aproveitou tanto essa oportunidade quanto a Enternaining Comics, ou, simplesmente, EC Comics, como é mais conhecida.

Inicialmente conhecida como Educational Comics, a editora foi fundada por Max Gaines, que já tinha experiência no ramo, pois trabalhou como editor da All-American Publications até 1944, quando a mesma foi adquirida pela DC Comics. Na época, Gaines conseguiu reter os direitos sobre uma de suas publicações, “Picture Stories From The Bible” e fundou a EC com a idéia de publicar gibis sobre ciência, História e a Bíblia com o objetivo de vender esse material para escolas e igrejas. Max é um dos pioneiros dos quadrinhos norte-americanos, tendo sido um dos responsáveis por aquele que muitos historiadores consideram como o primeiro gibi realmente originado na Terra do Tio Sam, a “Carnival of Comics”, da editora Dell Publishing, na primeira metade da década de 1930. Ou seja, experiência não faltava a ele.

Três anos depois de fundar a EC, Max Gaines sofreu um acidente de barco que resultou em sua morte. Assim sendo, a editora acabou passando para as mãos de seu filho, William, que promoveria uma verdadeira revolução na EC.

Entre 1949 e 1950, William começou a mudar o foco da editora. Saem os gibis educativos, entram histórias de horror, suspense, ficção científica, guerra e crime. Seus editores na época, os lendários Al Feldstein e Harvey Kurtzman contrataram diversos freelancers, alguns já consagrados na época, outros que passariam a ser lembrados justamente por causa desse período. Dentre os principais, podemos descatar Frank Frazetta – que mais tarde seria imortalizado pelo trabalho realizado no gibi do Conan - Joe Orlando, John Severin e Wally Wood.

A EC foi a pioneira em diversos aspectos que hoje são intrinsecos à Indústria de Quadrinhos. Um deles é o contato com o leitor. A EC foi a primeira editora a publicar uma seção de cartas em seus gibis, algo copiado por praticamente todas as editoras que vieram depois; Foi a EC a primeira a reconhecer a importância dos fãs quando manteve uma relação bem próxima com seu fã-clube, o National EC Fan-Addict Club; o mais importante, no entanto, era o fato da EC creditar cada um dos responsáveis pela produção de seus gibis, permitindo que os ilustradores assinassem seus trabalhos, prática incomum na Indústria de então. Uma página com a biografia de cada um dos escritores e ilustradores também costumava ser publicada nos gibis. Além disso tudo, os editores da EC ainda estimulavam seus artistas a desenvolverem estilos únicos, de forma que logo os leitores reconheceriam cada um deles simplesmente pela forma de seus traços.

A EC se distinguia também pela variedade de títulos que publicava. Sua linha de horror trazia títulos como “The Vault of Horror”, “The Haunt of Fear” e a clássica “Tales From The Crypt”, ou “Contos da Cripta”, cuja popularidade resistiu ao fim da editora e ainda teve um impulso especialmente nos anos de 1980, quando várias de suas histórias foram adaptadas para a televisão. “Frontline Combat” e “Two-Fisted Tales” traziam inglórias histórias de guerra; “Shock SuspenStories” talvez fosse o gibi mais denso da editora, já que costumava criticar o famoso “american way of life” e abordar questões como sexo, drogas e racismo; “Weird Science” e “Weird Fantasy” eram as meninas dos olhos da editora, seus gibis de ficção científica; já “Crime SuspenStories” eram filmes noir em forma de quadrinhos. Tudo isso à cargo, praticamente, de Gaines, Feldstein e Kurtzman. Nos dias de ouro da EC, a dupla de editores cuidava dos roteiros de 10 gibis por mês (7 para o primeiro, 3 para o segundo) e ainda escolhia qual desenhista se adequaria melhor à história a ser contada. As histórias eram geradas, principalmente, de idéias brutas propostas por Gaines e discutida entre os editores. Isso tudo e ainda um trabalho cuidadoso no que dizia respeito aos seus ilustradores, sempre os melhores que a editora pudesse encontrar, faziam o diferencial da EC.

Além de tudo isso, eventualmente a EC começaria a publicar um projeto despretensioso de Harvey Kurtzman, uma revista satírica recheada de paródias de ácidas críticas a... Bom, praticamente tudo. Intitulada “Mad”, a revista se tornou, com os anos, uma das mais respeitadas e douradouras publicações humorísticas dos Estados Unidos, tanto que, mesmo após o fim da EC há mais de 50 anos, ainda é publicada, agora sob o selo da DC comics.

Apesar de tudo isso, os dias da EC pareciam estar contados, já que a companhia começou a enfrentar problemas logo em seus primeiros dias, em 1948 e culminariam em 1954, quando a mesma praticamente sairia do mercado. Mas isso é algo que veremos daqui a duas semanas.

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Rodrigo L. Monteiro é professor, formado em publicidade e propaganda. Desde 2000 escreve para diversos sites especializados em cultura pop, ainda que com um caráter menos mainstream. Para falar com ele escreva para rod_montero@hotmail.com.


   
 

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