
14/03/08
ENTREVISTA \ CARLIN MOURA
Oposição
de conteúdo
Existem
controvérsias entre historiadores sobre quando surgiu
a idéia de partido político moderno. Entre
datas imprecisas e algumas suposições, temos
afirmações de que a Inglaterra do século
XVII viu nascer tal noção. Já no ano
de 1680, ainda na “Terra da Rainha”, a oposição
política, uma doutrina básica da democracia,
consolidou-se a partir da premissa de que os adversários
do governo não são inimigos do Estado, assim
como os opositores não são traidores ou subversivos.
De acordo com esse princípio democrático britânico,
o deputado estadual Carlin Moura (PCdoB) conduz sua atuação
na Assembléia Legislativa de Minas Gerais. Em entrevista
exclusiva ao O Binóculo,
o parlamentar falou de sua atuação na Casa,
onde tem ganhando notoriedade por sua oposição
ao governo mineiro.
Antes, pois, faz-se necessária uma melhor apresentação
deste novato no parlamento estadual. O nome de batismo é
Carlos Magno de Moura Soares, e a cidade natal é
a pequena Virgolândia, no Vale do Rio Doce. Filho
de lavradores, Carlin chegou à Região Metropolitana
de Belo Horizonte no início da década de 80,
adotando em 1983 a cidade de Contagem como sua nova morada.
Após completar seus estudos em escolas públicas,
em 1989 ingressou no curso de jornalismo da PUC/MG. Um ano
depois, foi aprovado em direito na UFMG, tendo que cursar
as duas universidades paralelamente.
Foi na Federal que ele se aproximou do movimento estudantil
e, conseqüentemente, da militância política,
com o ingresso no PCdoB ocorrendo em pouco tempo. Como advogado
do Sindicato dos Metalúrgicos e dos Petróleos,
Carlin percebeu de perto as necessidades dos trabalhadores.
Em 2000, disputou pela primeira vez um cargo eletivo, não
sendo eleito para vereador de Contagem. Mas já no
pleito seguinte, em 2004, foi eleito vereador na cidade,
dando um salto imediato na carreira política, elegendo-se
deputado estadual em 2006.
Como
você define sua postura em relação ao
Governo Aécio Neves?
Estou convicto de que fui eleito por movimentos que são
oposicionistas ao governo estadual, ou seja, que não
estão satisfeitos com o atual momento vivido em Minas
Gerais. O que procuro fazer é uma oposição
de conteúdo, frente à base forte que o governo
tem na Casa. Estamos em um momento em que pouco se debate
os problemas de Minas. O cerceamento à imprensa,
por exemplo, esconde problemas cruciais do Estado, como
o sistema injusto de arrecadação e a situação
do funcionalismo público. Vivemos o chamado Estado
Mínimo [característica do neoliberalismo],
no qual os servidores são sufocados por uma política
salarial rígida, em que a concessão de aumentos
é muito difícil. Sem falar na política
de terceirização da mão-de-obra, o
que ocorre em vários segmentos estatais, como na
Cemig.
Além
dessas falhas, o que mais você aponta no momento atual
de Minas?
Vivemos uma fase de fortalecimento da marca maior
do jeito mineiro de fazer política. Assim como em
outros tempos, Minas cresce atrelada à chegada ao
Palácio do Planalto [como aconteceu com Juscelino
Kubitschek e Tancredo Neves]. Passamos uma imagem de estarmos
bem no campo da política. Na realidade, estamos mal,
pois o desenvolvimento real do Estado está atrasado.
O crescimento vem sendo deixado em segundo plano, temos
potencial para muito mais. Ao contrário, estamos
perdendo espaço, com nosso posto de segundo Estado
do Brasil sendo ameaçado pelo Rio de Janeiro e pelos
Estados do Sul. O projeto neoliberal do Aécio Neves
não acrescenta nada.
Aécio
Neves tem amplo apoio na ALMG. Como é ser oposição
diante de uma situação assim?
Atuo com base no Regimento, tento obstruir algum projeto
que o governo queira aprovar e que contenha algo com que
não concordo. Vou à tribuna discursar, enfim...
Com a base de apoio que tem, o governo do Estado aprova
o que quiser. Principalmente agora, com a aliança
PT/PSDB, ser oposição está ainda mais
difícil. Mas é possível fazermos algo,
tentar amenizar, alterando algumas coisas, como no caso
do projeto de lei que tinha como base a isenção
do ICMS para os ricos.
Como
ter motivação para defender sua postura oposicionista
com uma base governista tão esmagadora?
Tenho uma experiência de vida quando fui diretor da
UNE [União Nacional dos Estudantes]. Em 1991, fizemos
a campanha ‘Universidade em Tempo de Collera’.
O país vivia uma epidemia de cólera e estava
sob o comando do ex-presidente Fernando Collor de Melo.
Naquele ano, já víamos muita coisa errada
no governo federal e falávamos em impeachment ao
presidente. Ainda assim militávamos contra uma figura
que tinha 70% de aprovação popular. Ou seja,
quanto maior o desafio, maior a motivação.
Estamos fazendo uma radiografia do modelo de governo em
curso no Estado. A máscara vai cair. Tenho visto
um amadurecimento, ainda que lento, por parte da população.
Como
é a relação com os demais deputados,
especialmente os do bloco de apoio declarado ao governo?
Sou um democrata. Separo bem as coisas, até por ser
advogado. Não tenho dificuldade nem problema de relacionamento
com nenhum deputado. Tenho trânsito livre com todos
eles. Faço questão do bom relacionamento,
já que a Assembléia preserva o clima ameno
da casa mineira.
Por
sua postura, você já sofreu alguma represália,
constrangimento ou tentativa de intimidação?
Nunca houve nenhuma dessas situações. Recebo
muitos e-mails de pessoas que apóiam o governo, mas
que buscam debater os problemas de Minas.
Sua
postura, certamente, deixa bem clara qual é sua posição.
Isso pode fazer com que você tenha antipatias. Por
outro lado, angaria apoio de quem tem postura crítica
sobre as questões de Minas. Quais são seus
projetos para sua vida política, há em vista
um passo maior, como tentativa de ingresso na Câmara
Federal ou na prefeitura?
O Futuro a Deus pertence. [risos].
Você
é formado em jornalismo. Qual sua opinião
sobre a relação que a mídia exerce
com o governo do Estado e com o governo Lula?
São dois pesos e duas medidas. A mídia brasileira
é ideologizada. Isso fica claro quando, em vez de
discutir o bom momento do país, a mídia prefere
dar amplo espaço para falar de epidemia de febre
amarela, que não aconteceu, falar de CPI e outros
assuntos menores. Estamos perdendo uma ótima oportunidade
de aproveitar o crescimento do país, que poderia
ser maior, caso houvesse um debate mais profundo.
Que
paralelo é possível traçar entre a
oposição ao governo federal e ao governo estadual?
A oposição federal segue os moldes clássicos
do Udenismo, é rasteira, moralista, sem conteúdo.
Os oposicionistas ao governo Lula são filhotes da
UDN [União Democrática Nacional, partido político
fundado em 1945, opositor às políticas e à
figura de Getúlio Vargas e de orientação
liberal]. Em Minas, buscamos fazer uma oposição
moderada, de conteúdo. Às vezes, nem tem oposição
[risos].
Qual sua opinião sobre a quase certa aliança
do PT com o PSDB na capital mineira?
Isso é o cruzamento de vaca com jumento. Não
dá leite, nem puxa carroça. As pessoas não
enxergam proximidade entre os partidos [ao contrário
de muitos dos defensores da aliança, que entendem
que PT e PSDB têm a mesma raiz ideológica,
a social democracia]. Para o povo, o PT nasceu para defender
os interesses dos trabalhadores, enquanto que o PSDB existe
para garantir os privilégios da elite dominante deste
país. Essa aliança é um retrocesso.
Para o povo, petistas e tucanos são como óleo
e água, não se misturam. A aliança
é um desserviço à trajetória
de luta da sociedade brasileira.
Comente
o atual momento do Partido Comunista do Brasil.
O PCdoB vive um excelente momento, fruto de sua postura.
Fomos muito importantes na eleição e reeleição
do presidente Lula. O país tem alcançado avanços,
como a equalização da dívida externa,
que teve início num processo nascido há 17
anos. Temos outras conquistas, mas reconhecemos que é
preciso fazer muito ainda. Precisamos avançar no
sentido de colocar em prática as seis reformas democráticas
[Reforma Tributária, Reforma Política, Reforma
da Educação, Reforma Urbana, Reforma Agrária
e Democratização da Mídia]. Temos que
nos empenhar para o pagamento da maior das dívidas
do país, que é a dívida social, através
da inclusão social, da distribuição
de renda etc. Esse desafio coloca o partido em crescimento.
Precisamos seguir com a luta popular, aproveitando o bom
momento do Brasil para avançarmos mais.
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2007
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Orozimbo Souza Júnior
é jornalista, assessor de imprensa e pós-graduando
em Comunicação Política. Escreve todas
as quartas-feiras. E-mail: souzajunior1@yahoo.com.br.
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