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20/10/08
Dona
Margarida, uma lenda
A dona Margarida mora aqui pertinho, ali, na rua de baixo
mesmo. Bem velhinha, usa sapatinhos de velinha e também
vestidinhos de pano cru coloridos, tipo psicodélico.
Quando apontei na esquina ela andava para lá e para
cá no quintal, frenética, rarefeita. Chão
ladrilhado vermelho, degrauzinho, dois ou três, portãozinho
cinza, tinta opaca, apagada. Capenga. Porta de madeira,
mal se via a cor. Uma casa conservada, porém.
Enquanto a sacola de plástico do supermercado sacolejava
seguindo o ritmo do pagode da esquina, como criança
eu chutava algumas pedrinhas na rua; dona Margarida aproximou-se
das grades cinzas do portão, botou as duas mãos
ali, agarrou-se, com força. Ao me notar, pediu isqueiro,
fósforo, fogo, "qualquer coisa". Parecia
excitada. Não tenho senhora.
Perguntou o que eram nas minhas mãos. Pediu um.
Abri a sacola
com cuidado, o saco de pães, e estiquei em sua direção,
mais ao alto, à beira do quintal e das grades de
ferro. Parecia sentir muita fome. Seus olhos, vivos coloridos
azuis, incrivelmente psicodélicos, não poderiam
ter aquela idade toda. Ao fitá-los, cintilantes,
os meus fixaram-se naquela imensidão de cores azuis.
Naveguei por instantes naquele mar brilhante.
Do saco, o pão foi direto para a boca de dona Margarida,
à seco, "pão com pão". Agradeceu
simbólica e dei um tchau. Continuei pelo trilhozinho
de terra, chutando pedrinhas, levar o pão pra casa.
Como o azul é bonito.
Em casa, a Tia Neide contou que era “uma velha louca
daqui do bairro, alucinada”.
Talvez ela ouça blues. Não importa
na verdade. Ela sentia fome, igualzinho a mim – uma
fome diferente, contudo. A minha vinha d´alma, do
coração; a dela, do estômago mesmo.
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2007
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Gabriel
Pansardi Ruiz é jornalista, cursa o último
ano na Universidade Estadual Paulista em Bauru-SP, curte
de rock ´n roll, cinema, fritas, vodka e tem uma banda
que toca em troca de cervejas. Trabalha como bolsista na
web
rádio Unesp Virtual, onde também
produz reportagens para os programa "Raiz
Social". Mais escritos
no seu blog.
Escreve quinzenalmente as segundas. E-mail: gabrielpruiz@yahoo.com.br
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