OPPERAA
 
Baby Boom
     
 
 
     

Talvez ela ouça blues. Não importa na verdade. Ela sentia fome, igualzinho a mim – uma fome diferente, contudo. A minha vinha d´alma, do coração; a dela, do estômago mesmo.

 

Foto retirada daqui:
flickr.com/photos/lubrito30/2260360516/

 



20/10/08
Dona Margarida, uma lenda


A dona Margarida mora aqui pertinho, ali, na rua de baixo mesmo. Bem velhinha, usa sapatinhos de velinha e também vestidinhos de pano cru coloridos, tipo psicodélico.

Quando apontei na esquina ela andava para lá e para cá no quintal, frenética, rarefeita. Chão ladrilhado vermelho, degrauzinho, dois ou três, portãozinho cinza, tinta opaca, apagada. Capenga. Porta de madeira, mal se via a cor. Uma casa conservada, porém.

Enquanto a sacola de plástico do supermercado sacolejava seguindo o ritmo do pagode da esquina, como criança eu chutava algumas pedrinhas na rua; dona Margarida aproximou-se das grades cinzas do portão, botou as duas mãos ali, agarrou-se, com força. Ao me notar, pediu isqueiro, fósforo, fogo, "qualquer coisa". Parecia excitada. Não tenho senhora.

Perguntou o que eram nas minhas mãos. Pediu um.

Abri a sacola com cuidado, o saco de pães, e estiquei em sua direção, mais ao alto, à beira do quintal e das grades de ferro. Parecia sentir muita fome. Seus olhos, vivos coloridos azuis, incrivelmente psicodélicos, não poderiam ter aquela idade toda. Ao fitá-los, cintilantes, os meus fixaram-se naquela imensidão de cores azuis. Naveguei por instantes naquele mar brilhante.

Do saco, o pão foi direto para a boca de dona Margarida, à seco, "pão com pão". Agradeceu simbólica e dei um tchau. Continuei pelo trilhozinho de terra, chutando pedrinhas, levar o pão pra casa. Como o azul é bonito.

Em casa, a Tia Neide contou que era “uma velha louca daqui do bairro, alucinada”.

Talvez ela ouça blues. Não importa na verdade. Ela sentia fome, igualzinho a mim – uma fome diferente, contudo. A minha vinha d´alma, do coração; a dela, do estômago mesmo
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2007

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Gabriel Pansardi Ruiz é jornalista, cursa o último ano na Universidade Estadual Paulista em Bauru-SP, curte de rock ´n roll, cinema, fritas, vodka e tem uma banda que toca em troca de cervejas. Trabalha como bolsista na web rádio Unesp Virtual, onde também produz reportagens para os programa "Raiz Social". Mais escritos no seu blog. Escreve quinzenalmente as segundas. E-mail: gabrielpruiz@yahoo.com.br


   
 

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