
18/09/08
A fertilidade das indústrias
[de automóveis]
Estou de volta.
Indo e vindo em uma das maiores capitais do Brasil e com
muita frustração convertida em palavras. O
que venho dizer para vocês, caros internautas, pode
ser entendido como um dos motivos do meu sumiço.
Inicialmente planejada como emblema da ordem e do progresso,
a metrópole de hoje sofre com a crise da falta de
espaço e com o excesso de carros nas ruas. No ano
passado, a indústria automobilística comemorou
a maior venda de automóveis dos últimos 10
anos e indicou aumento na produção. Neste
ano, 'nascem' mais carros que seres humanos na capital.
Sem espaço para tantos carros, pedestres como eu
e a maioria dos leitores desta coluna, somos espremidos
e compactados no meio-fio e nos transportes coletivos da
cidade. Quem enfrenta o trânsito da cidade entre 6h
e 8h ou entre 17h e 19h sabe do que estou falando.
Mesmo em cadeiras confortáveis, com o som e o ar
condicionado ligado, o motorista de carro chega a perder
a paciência ao seguir seu trajeto na velocidade de
10 km por hora. Mas, pior que um motorista em um engarrafamento
é um ônibus inteiro, com lotação
quase esgotada, parado frente à dezenas de carros
ocupados por uma pessoa apenas.
Há mais carros e menos tempo. O trânsito é
o maior responsável pela falta de pontualidade das
pessoas, e mesmo os que sonharam com a aquisição
de um carro para encurtar as distancias, hoje também
sofrem com a falta de mais números no relógio.
De fato, se ampliassem as horas do dia, três, no mínimo,
seriam para se gastar no trânsito.
O ônibus é quase uma extensão do laborioso
trabalho assalariado e o carro é a extensão
do corpo de quem pode pagar por mais conforto. Os dois sofrem
com o trânsito lento. Chegam a gastar 40 minutos para
cruzar a Av. Getúlio Vargas ou para subir a rua da
Bahia. Claro, o primeiro tem que ir em pé, sem porta
malas e ar condicionado. Música, só se for
do mp3 player.
Neste drama moderno, do ir e vir, o estudante se atrasa
- perde aula. O professor se atrasa. O empregado se atrasa
– com a marmita quase azeda. Chega em casa de noite,
perde o jogo, o jornal, a janta esfria e a mulher esquenta
por ter que esperar uma hora a mais pelo marido. O motorista
de ônibus diz não ser respeitado pelos outros
motoristas. O motorista do carro ao lado diz que o motorista
do ônibus é ignorante. O taxista reproduz o
discurso a todos os outros e o motoqueiro é atropelado
ou atropela os outros com a pressa...
...E a indústria automobilística está
mais fértil do que nunca.
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Carlos
Alberto está se graduando em História,
é chefe de cozinha e músico de araque. Especialista
em filosofia de buteco, estratégias sustentáveis
de sobrevivência na cozinha e soluções
subversivas para superar rotinas exaustivas de trabalho.
Fale com ele: veganito126@gmail.com
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